UNDER_SPOTLIGHT: CARLOS MANAÇA

Há percursos que atravessam décadas e moldam identidades. Em 2026, Carlos Manaça assinala 40 anos de carreira, um marco raro e profundamente simbólico na música electrónica portuguesa, espelhando a própria evolução da cultura de clubbing no país.

UNDER_SPOTLIGHT

2/23/202617 min read

Desde os primeiros passos no Barreiro, em 1986, até aos grandes palcos nacionais e internacionais, Carlos Manaça foi muito mais do que um DJ presente: foi agente activo de mudança, pioneiro e embaixador da música de dança feita em Portugal. A sua presença contínua nos momentos-chave da história electrónica nacional dos clubes fundadores como o Cais 447 e o Rock’s Club, aos festivais, editoras e palcos internacionais consolidou um percurso que ajudou a definir várias gerações de clubbers e artistas.

Produtor respeitado e fundador da Magna Recordings, é responsável por lançamentos que rapidamente ultrapassaram fronteiras, integrando o repertório de nomes centrais da música electrónica global. Ao longo dos anos, o seu trabalho foi suportado por uma carreira consistente, marcada por colaborações relevantes, presença regular em grandes eventos e um compromisso contínuo com a qualidade artística e técnica.

Hoje, para além da cabine e do estúdio, Carlos Manaça assume também um papel activo na formação e desenvolvimento da nova geração, seja através da Beat Works ou do ensino na ETIC, mantendo-se ligado à evolução da música electrónica sem perder a ligação à pista e à cultura que o formou.

Nesta edição especial do Under_spotlight, celebramos quatro décadas de dedicação, visão e paixão. Uma conversa que revisita o passado com consciência histórica, analisa o presente com lucidez e projecta o futuro com a autoridade de quem continua a escrever a história da música electrónica em Portugal.

Em 2026 celebras 40 anos de carreira. Quando olhas para 1986 e para o jovem que começou no Barreiro, o que sentes que mudou mais: a música, a indústria ou tu próprio?

Como é normal tudo mudou bastante desde essa altura. Quando em 1986 comecei a trabalhar como segundo DJ nos “Franceses” no Barreiro já tinha feito algumas festas na minha escola secundaria e em garagens, nos anos anteriores, mas só comecei a contabilizar a minha carreira no momento que passei a ser profissional, em Setembro de 1986.

Para começar a trabalhar tive que ir fazer uma demonstração / audição à tarde, para o gerente, alguns empregados e o dono da discoteca verem se eu estava “apto” para a tarefa. Tive que usar os gira-discos da discoteca e os discos da discoteca porque eu não tinha sequer equipamento em casa. Treinava em casa de um amigo que também era DJ e que foi quem me aconselhou ao gerente. E tive que fazer um “set” com vários tipos de musica, porque naquela altura uma sessão de DJ residente (não havia ainda sequer o conceito de DJ convidado) tinha que ter vários tipos de musica, inclusive “slows”, que eram musicas lentas, baladas, para as pessoas dançarem agarradas. Nessa altura muitos clientes só iam à discoteca por causa disso, porque era então que convidavam as raparigas para dançar para as conhecer. Era, pode-se dizer, um dos motivos principais para as pessoas irem às discotecas, travar conhecimento com outras pessoas, socializar. Nessa altura a musica era importante para tentar manter o mais possível os clientes na pista, na casa, para consumirem no bar e socializar e isso significava ser o mais versátil possível na musica e ter à vontade com o microfone. Felizmente eu era eficaz em ambas as coisas. Nessa altura era frequente o gerente vir à cabine dizer “muda a musica, passa ‘reggae’” (ou outro estilo) ou então “passa mais 30 minutos de ‘slows”. Inclusive cheguei a ouvir “passa lá dois ou três temas ‘maus’ para eles saírem da pista e virem beber”, que era um clássico. A musica e o papel do DJ eram totalmente orientados ao funcionamento da casa e aos clientes que tínhamos. O nosso objectivo era que se divertissem, consumissem o máximo possível no bar e saíssem o mais tarde possível da casa

O contraste com os dias de hoje não pode ser maior. Hoje em dia são os DJs que, com a sua musica, definem o publico que vai à discoteca / evento. Falo, obviamente, dos DJ’s convidados, dos eventos específicos de electronica.

Claro que continuam a existir casas com DJ’s residentes que têm que se moldar às tendências musicais do momento e que fazem um grande trabalho. Eles são determinantes para o sucesso dessas discotecas. Mas o facto de o DJ hoje em dia ter tanta ou mais importância que uma banda é uma coisa impensável naquela altura. E alguns eventos com DJ’s hoje em dia têm uma produção de um nível muito proximo ou até superior aos das bandas de topo, a nível mundial. Essa é sem duvida uma grande mudança desde os anos 80.

Claro que a musica mudou bastante desde essa altura, houve um aumento de estilos e sub-estilos musicais, mas acho que o que mais se alterou foi a maneira como consumimos musica. Nos anos 80 dependíamos exclusivamente da radio para ouvir musica. Para podermos ouvir mais tarde tínhamos que a gravar em cassetes e rezar para o locutor não falasse. Lembro-me de ouvir o “Discoteca” do Adelino Gonçalves todos os dias entre as 13 e as 15 horas na Radio Comercial para estar a par das novidades que vinham do estrangeiro. Lembro-me também do “TNT - Todos no Top” do Jorge Pego e do Adelino Gonçalves também na Radio Comercial.

No inicio dos 90 começaram os programas de musica na TV (lembro-me do “Top +” e do “Pop Off”) mas os gravadores de video só se tornaram acessíveis mais tarde, eram caros, por isso era da radio que “extraíamos” a musica que gostávamos. Mas tínhamos que estar em frente à radio à hora do programa de musica para a podermos ouvir. Os mais felizardos, os que tinham radio com gravador, podiam gravar para ouvir mais tarde, mas no inicio tinham que estar também em frente à radio à hora do programa. E dependíamos totalmente da escolha musical da radio ou do apresentador do programa. Hoje em dia ouvimos a musica que escolhemos, quando queremos. Temos na mão um radio, gravador, TV, telefone (entre muitas outras coisas) que é basicamente um computador bem mais potente do que os primeiros computadores que apareceram.

Foste protagonista directo dos primeiros grandes clubes e momentos fundadores da música electrónica em Portugal. Na tua opinião, o que mais distingue essa geração pioneira da realidade actual do clubbing?

A realidade atual é bastante diferente do que se passava nessa altura. Nos final dos anos oitenta, quando a musica electronica de dança começou a ganhar o seu espaço, os meios de difusão musical eram bastante diferentes dos que existem agora. Naquela altura só através da radio podíamos ouvir musica electronica e mesmo assim só em alguns programa específicos. Como disse antes tinha que sintonizar a radio e os programas específicos para tentar apanhar as novidades que vinham do estrangeiro. Não havia internet e não existiam revistas especializadas nas bancas. Na TV o só em 1990 apareceu o “Top Mais” programa onde eram apresentados os discos mais vendidos em Portugal. Alguns (poucos) tinham TV por satélite e podiam ver o canal MTV. A informação que nos chegava sobre as tendências musicais lá fora era muito pouca, por isso para ouvirmos musica de dança nova só através da radio ou indo às discotecas que nessa altura passavam musica electronica, que eram muito poucas. No final dos anos 80, inicio dos anos 90 tudo era novidade, não havia ainda sequer um circuito de DJ’s convidados e eram poucos os DJ’s que só passavam musica de dança.

Hoje em dia temos toda a musica do mundo na palma das mão, ouvimos o que queremos, quando queremos. Nem precisamos de ir aos eventos para ouvir os nossos DJ’s favoritos, muitos eventos são transmitidos em directo, outros são gravados e publicados posteriormente. Os DJ’s atingiram a notoriedade de uma banda, têm toda a sua informação disponível online, sabe-se quase tudo sobre as musicas que tocam, o seu “tracklist”. As novas gerações de clubbing têm agora uma quantidade de informação disponível que na altura não existia. Penso que essa é uma das principais diferenças.

As residências no Cais 447 e no Rock’s Club marcaram uma era e trouxeram a Portugal nomes que hoje são lendários. Que impacto achas que esses espaços tiveram na formação do público e dos DJs nacionais?

Fui DJ residente do Cais 447 em Matosinhos entre finais de 1992 e inícios de 1995 e nesse espaço de tempo o Cais 447 tornou-se uma referencia no norte a nível de musica electronica. No sul existiam o Alcantara Mar e o Kremlin como referencias, mas no norte as discotecas ainda eram generalistas, passavam um pouco de tudo. Talvez as que mais arriscassem com noites especificas fossem o Swing e o Industria, mas a nível de musica electronica e dos chamados “after hours” foi o Cais 447 que começou a destacar-se na zona norte. É verdade que havia uma noite de “rock” às sextas feiras (que a pouco e pouco consegui alterar para hip-hop) e que aos sábados, no inicio da noite, a musica era mais comercial, tocada por outro DJ residente. Mas a partir das 4 da manhã eu entrava e comecei, lentamente, a levar o publico para um registo só de musica electronica, com as novidades que trazia todas as semanas da loja de discos Bimotor Porto, onde era responsável pelas importações de musica.

Tínhamos empregados estrangeiros na altura, um deles era da Holanda onde já existiam “Raves” e por isso começámos a faze-las no Cais 447 no inicio de 1993. Eram noites só de musica electronica, de inicio ao fim, coisa ainda não muito normal na altura, no norte. Claro que as primeiras grandes “Raves” no norte, em 1993 no Convento de São Francisco em Coimbra e a do Castelo de Santa Maria da Feira em 1994 vieram dar ainda mais projecção e divulgação ao que fazíamos no Cais 447. Fomos a primeira discoteca do norte a ter DJ’s convidados, nacionais e estrangeiros, primeiro em noites normais e depois nas famosas “Raves” e “After Hours” que fazíamos, a partir das 4 da manhã. Nomes como o DJ Eduardo (residente do então famoso Alcantara Mar), Tó Pereira (agora DJ Vibe) e Luis XL Garcia passaram a ser presenças constantes aos sábados no Cais 447. Era normal ver todos os empregados, DJ’s, RP’s das outras casas virem até ao Cais e ficarem até de manhã porque éramos os que fechávamos mais tarde. No inicio de 1995 fui alvo da “transferencia do ano” relativamente a DJ’s. Depois de ter contribuído para tornar o Cais 447 numa referencia na zona norte fui contratado para o Rock’s em Vila Nova de Gaia. Foi uma transferencia polémica, os meus patrões do Cais 447 não me queriam deixar sair, ofereceram-me o dobro do meu ordenado mensal (que já era muito bom na altura) para não sair, mas eu entendia que o meu período ali já tinha terminado e decidi ir para o Rock’s. Estavam a começar um projecto só de musica electronica no qual eu me revia e decidi aceitar o lugar de DJ residente principal, mesmo com um ordenado menor do que iria ganhar no Cais 447. É verdade que pedi várias coisas extra ao Rock’s, uma das quais uma viagem e estadia paga à Winter Music Conference em Miami, em Março de 1995. Foi a primeira vez que estiveram Portugueses nesta conferencia que ainda era feita só no hotel Fontainebleau e ainda era relativamente pequena. Foi ali que falámos com Armand Van Helden que na altura era um dos principais DJ’s e produtores internacionais, para vir ao Rock’s. E foi um festão, totalmente esgotado ! A partir do grande sucesso que foi o evento do Armand Van Helden passámos a trazer regularmente quase todos os top DJ’s internacionais, primeiro uma vez por mês, depois todos os fins de semana. Vinham pessoas de todo o país para verem nomes como Danny Tenaglia, Josh Wink, Jeff Mills, Laurent Garnier, entre muitos outros, que actuaram pela primeira vez em Portugal no Rock’s. Tivemos até uma atuação dos Underworld ao vivo num espaço que totalmente cheio devia levar 600 / 700 pessoas. Mas onde chegaram a passar à volta de 2000, desde a abertura ao fecho, muitas vezes para lá do meio-dia. O Rock’s foi a primeira discoteca em Portugal a ter uma programação só de musica electronica, com top DJ’s internacionais e nacionais, provando que esses eventos eram rentáveis e que havia muito publico para eles. O Cais 447 começou esse movimento e o Rock’s continuou-o e tornou-o regular com uma programação muito forte a nível de nomes. Penso que ambos foram muito importantes para tudo o que aconteceu depois na “dance scene” em Portugal.

A Magna Recordings tornou-se uma das editoras portuguesas com maior projeção internacional. Que visão tinhas quando a criaste e como conseguiste manter relevância ao longo de tantos anos?

A Magna começou inicialmente com uma forma de editarmos as nossas produções e de alguns novos produtores que estavam a começar naquela altura. Existiam duas editoras importantes de musica electronica em Portugal, naquela altura, a Kaos Records era a principal a nível nacional e internacional, e a Squeeze Records (e Ohn.Cet Records) do DJ A.Paul, que era mais vocacionada para o Techno.

Eu trabalhava na altura com uma dupla do Porto chamada O.L.N., com os quais editei o meu primeiro tema em 1995 na Kaos e depois na Tribal America. Foram 2 remisturas de dois temas deles (“Places Of Pleasure” e “Reboot 144”) que tiveram muito destaque a nível nacional e internacional. Mas depois de 1995 enviámos varias demos para a Kaos e eles disseram sempre que já não tinham “agenda” para essas edições. Eu e o Paulo Rocha (Paul Jays, um dos integrantes dos O.L.N.) pensámos: porque não tentarmos editar nós próprios os nossos temas, criando uma editora ? Tínhamos um bom tema vocal chamado “Most Anything” e em 1997 criámos a Magnetic Records e lançamos esse vinil. Os O.L.N. não podiam usar esse nome devido ao contrato da Kaos que ainda estava em vigor, por isso usaram o nome M.System sendo o nome do tema “Most Anything”. Teve bastante sucesso em Portugal, mas como só tínhamos a Bimotor e a World Music (2 lojas nacionais) a fazer a distribuição, infelizmente não chegou a muitas lojas lá fora. Foi a única edição da Magnetic Records. Mas aprendemos com os erros, e em 1999 quando criámos a Magna Recordings já tínhamos distribuidora internacional o que permitiu que as nossas edições chegassem ao mundo inteiro. As primeiras edições da Magna Recordings lançadas em Maio de 2000, o meu original “Feel The Drums” e o “The First Tribal Feeling” dos algarvios Bruno Marciano e Peter Tha Zouk (agora Pete Tha Zouk) esgotaram nos primeiros dias e tivemos que fazer vários “repressings” das duas referencias. A terceira edição da Magna, “Spiritual Battery” de Paul Jays, saiu em Julho de 2001 e foi um êxito estrondoso. Foi licenciado para inúmeras compilações internacionais e líder nas principais tabelas de vendas. Foi considerado por Danny Tenaglia um dos seus dez temas favoritos de House de sempre. Até 2007 fizemos edições em vinil, mas quando o nosso distribuidor fechou e consequentemente não nos pagou as edições que já tínhamos à venda e que estavam pagas à fabrica antecipadamente por nós, levámos um rombo financeiro importante… Mas mesmo assim decidimos continuar, só em versão digital, até hoje. A nossa ideia sempre foi e continua a ser editar os temas que nós sentimos que encaixem no “espirito” da editora, sejam eles de House, Tech House, Techno ou mais recentemente Afro House. Para o bem e para o mal nunca vimos a editora como um negocio e sim como um veiculo para editar boa musica

Ao longo da tua carreira trabalhaste com artistas como Chus & Ceballos e tiveste música incluída em compilações icónicas como a Global Underground. Esses momentos mudaram a forma como olhaste para o teu percurso internacional?

Claro que todos esses momentos influenciaram muito a minha carreira profissional e até a minha vida pessoal. Em 1995, com as minhas remixes dos O.L.N. que foram editadas primeiro pela Kaos e depois pela Tribal America (e UK) tive uma enorme satisfação pelo sucesso que essa edição atingiu e pelo destaque que o meu nome começou a ter a nível nacional e lentamente a nível internacional. Nessa altura já atuava regularmente em Espanha, na Galiza e também em Madrid e essa primeira edição numa editora tão importante como a Tribal America marcou-me muito, porque era muito difícil entrar nessas editoras internacionais. Em 2001, o tema “Strong Rhythm” em colaboração com o Chus e o Pablo Ceballos, primeira edição da Stereo Productions, atingiu os “tops” de muitos países e foi incluido em muitíssimas compilações, uma das mais importantes foi a “Global Underground 021: Moscow” dos Deep Dish. Foi uma sensação fantástica porque as compilações da Global Underground eram das mais respeitadas a nível global. A nossa ligação em estúdio foi muito boa, quer o Chus quer o Pablo são dois produtores incríveis e que sabem bem onde querem chegar quando estão a compor / produzir. E isso é muito importante no trabalho em estúdio. Essa ligação com eles foi tão importante que em 2002 decidi ir fazer o curso de “audio engineering” na SAE Madrid e por lá fiquei a viver até 2021. O destaque que o “The Strong Rhythm” teve abriu-me sem duvida as portas de alguns dos melhores “clubes” e eventos internacionais.

Viveste vários ciclos da música electrónica  do vinil à era digital, do clubbing puro aos festivais de massas. Qual foi, para ti, a maior transformação positiva… e a mais difícil de aceitar?

Tal como já descrevi nas respostas anteriores, a “dance scene” em Portugal é hoje muito diferente do que acontecia nos anos 80. A forma como consumimos musica também é bastante diferente. Passámos de não termos praticamente acesso ao que acontecia lá fora, a nível de tendências musicais, a termos acesso em tempo real aos nomes dos temas que alguns dos principais DJ’s estão a tocar. A internet primeiro e mais recentemente as redes sociais vieram dar um acesso muito mais imediato ao que acontece um pouco pelo mundo inteiro. E isso faz toda a diferença ! Antes, para sabermos quais os temas que iam “bater” durante o ano tínhamos que estar presentes em eventos como a Winter Music Conference que acontece em Março em Miami. Agora, mesmo sem lá ir, consigo saber o nome de praticamente todos os temas que tiveram destaque nos vários eventos que acontecem nessa semana. Acho que ter acesso a toda essa informação, que está quase toda acessível a todos, é o aspecto mais positivo relativamente ao que acontecia antes. Claro que a massificação da musica electronica também é uma grande diferença relativamente ao que acontecia nos anos 90 e 2000. Nessa altura a musica electronica ainda era mais vocacionada para as discotecas e alguns eventos pontuais. A partir do momento que os eventos começaram a ter milhares de “clubbers” e começaram a ser muito mais frequentes as discotecas com programação regular de musica electronica começaram a ter problemas. É o que está a acontecer neste momento, infelizmente. E não me parece que vá mudar nos próximos tempos. Com a generalização das redes sociais apareceram novos tipos de DJ’s e eventos, mais virados para o espectáculo e menos para a musica em si mesmo, que em muitos casos passou a ser um acessório do “espectáculo”. A musica deixou de ser o mais importante em alguns eventos. A produção, os visuais, a “performance” física do DJ passou a ser o mais importante. E isso, para mim, é a parte menos positiva do que acontece neste momento em alguns eventos. Na minha opinião os visuais, a produção, toda a montagem do evento deve ser um complemento à musica que se toca, criar uma experiência única, onde a musica deve ser o mais importante.

Em 2016 celebraste 30 anos de carreira e recebeste vários prémios importantes. O reconhecimento institucional é algo que valorizas ou a validação continua a vir sobretudo da pista?

Obviamente que o meu melhor “premio”, a minha principal motivação é a satisfação que vejo na cara das pessoas quando eu termino o meu “set”. Essa expressão não tem preço para mim ! É o que me motiva, nestes já longos 40 anos de carreira.

Mas também é muito bom receber prémios institucionais, sentir que as instituições reconhecem o meu trabalho e que este foi e é relevante para as pessoas. Em 2016 recebi vários prémios, um deles (talvez o menos esperado) foi me dado na minha cidade natal, o Barreiro. Foi me entregue a medalha da Cultura da Cidade do Barreiro numa cerimónia no salão nobre da Camara Municipal do Barreiro pela mão do presidente da Camara Municipal, com os meus amigos e familia a assistir. Nunca imaginei receber tal distinção quando comecei a minha carreira !

Nos últimos anos assumiste também o papel de formador e engenheiro de som. O que te motiva a transmitir conhecimento e o que sentes que falta hoje aos novos produtores e DJs?

É muito bom poder transmitir algo do que aprendi ao longo dos anos, quer no estúdio quer na cabine. Sinto-me muito honrado em poder faze-lo e acho que o faço bem. É claro que no inicio houve aquele nervoso em “enfrentar” a primeira turma, em tentar perceber qual a melhor maneira de transmitir a informação. Como digo muitas vezes, ter o conhecimento, a experiência, é importante. Mas é muito importante saber transmiti-la. Hoje em dia a única coisa que sinto que talvez falte a alguns produtores / DJ’s é paciência. Paciência para traçar um caminho, criar um som próprio, tentar e explorar a sua própria sonoridade. Muitos querem ter sucesso “amanhã” e para isso copiam a formula do que está na moda neste momento. O que leva a que muitas demos que recebo sejam praticamente iguais ao que já existe no mercado… e quando explico isso aos produtores, quando digo que não vamos editar na Magna por esse motivo, muitos não entendem e respondem que os temas que enviaram são tão bons como “os que estão neste momento no 1º lugar do Chart de Afro House”. Mas esse é precisamente o problema, são “copias” do que já existe, e essa não é a nossa ideia para edições na Magna Recordings.

Depois de uma carreira com presença em tantos países e contextos diferentes, o que continua a entusiasmar-te quando sobes a uma cabine?

Quando entro na cabine, começo a tocar e vejo que estamos praticamente todos em“sintonia” é uma sensação indescritível. E se quando termino o “set" vejo expressão de satisfação na maior parte das caras à minha frente a realização é total e é o “combustível” que me faz querer voltar à cabine o mais rapidamente possível.

Olhando para o futuro, como gostarias que a história de Carlos Manaça fosse lembrada dentro da cultura electrónica portuguesa quando se fala destes 40 anos?

Ficaria contente que a minha historia fosse lembrada como alguém que esteve ligado à “dance scene” em Portugal desde o inicio, com passagem por editoras como a Kaos Records e Tribal America, que deu o seu pequeno contributo à divulgação do que se faz em Portugal a nível de musica electrónica mais “underground” através da sua editora Magna Recordings. Alguém que como DJ esteve presente e tocou a vida de varias gerações de “clubbers”, para quem a musica foi uma forma de vida e que tentou ser sempre correcto e honesto com todos com quem se cruzou, dentro e fora das cabines.

A equipa da UnderMag expressa um agradecimento sincero a Carlos Manaça pela generosidade, tempo e profundidade com que partilhou connosco esta conversa. Numa edição especial do Under_spotlight dedicada aos seus 40 anos de carreira, tivemos o privilégio de revisitar capítulos essenciais da história da música electrónica em Portugal através de quem a viveu, construiu e ajudou a transformar.

Ao longo destas respostas, não encontramos apenas memórias encontramos contexto, visão e uma consciência rara sobre o que significa crescer com a cultura de clubbing sem perder a ligação às suas raízes. Dos primeiros clubes às editoras, das cabines às salas de aula, o percurso de Carlos Manaça continua a ligar gerações, mostrando que a longevidade nesta cena nasce da paixão, do rigor e de um compromisso genuíno com a música.

Num tempo em que tudo parece rápido e descartável, celebrar quatro décadas de dedicação é celebrar também a persistência, a autenticidade e o respeito pela pista e pelo público. Por isso, mais do que um agradecimento, fica o reconhecimento pelo contributo que continua a dar à cultura electrónica portuguesa e pela inspiração que deixa a quem hoje começa o seu caminho.

Obrigado por esta conversa, pela história partilhada e pela música que continua a unir-nos.
Vemo-nos na pista.