
UNDER_SPOTLIGHT: MIGUEL NERY
O nosso convidado desta edição do Under_Spotlight é Miguel Nery. Estivemos à conversa com o DJ português para conhecer melhor o seu percurso, as influências que moldaram o seu som e a forma como encara a pista de dança enquanto espaço de ligação e movimento colectivo.
UNDER_SPOTLIGHT


Ligado à música desde muito cedo, Miguel Nery cresceu literalmente perto das cabines e da cultura clubbing, absorvendo uma educação silenciosa da pista que hoje se reflecte na forma como constrói os seus sets. O seu som move-se sobretudo no território do house, guiado por uma abordagem honesta e intuitiva onde a prioridade é sempre a energia do momento e a ligação com o público.
Em 2024 assinalou um momento importante no seu percurso com a estreia no Lux-Frágil, um dos clubes mais emblemáticos da cultura electrónica portuguesa. Entre clubes, pistas e diferentes contextos, Miguel continua a afirmar uma visão onde a música é sobretudo um espaço de encontro algo que também se reflecte em projectos como o Pôr do Som, pensados para juntar diferentes gerações na mesma pista.
Nesta conversa para o Under_Spotlight, Miguel Nery fala-nos sobre as suas influências, a importância do DJ enquanto selector e a forma como encara o presente e o futuro da cultura electrónica.
A música parece fazer parte da tua vida desde muito cedo. Lembras-te do primeiro momento em que sentiste que a dança e o som iam ser mais do que um simples passatempo?
Sim, lembro-me perfeitamente. Devia ter uns seis anos e estava no canto do palco do Anti-Pop a ver os Octave One a tocar. A intensidade daquele live marcou-me muito. Não era só música, era energia, era tensão, era entrega física. Lembro-me de sentir o impacto do som e de perceber, mesmo sem conseguir explicar, que ali estava a acontecer algo maior do que entretenimento. Acho que, nesse momento, decidi que ia fazer algo relacionado com a música.
O teu percurso levou-te a tocar em diferentes cidades e contextos. De que forma as tuas experiências e influências ao longo do caminho moldaram o teu som e a tua forma de estar na cabine?
Quando era miúdo, a melhor coisa que me podia acontecer era o meu pai levar-me com ele para o trabalho ao fim de semana. Passei muitos anos sentado nos cantos das cabines, a observar em silêncio. Fiz muitos quilómetros de carro com artistas que admiro. Cresci mais a ver e a ouvir do que a falar e isso moldou completamente a minha forma de estar na cabine. Aprendi que tocar não é só escolher música, mas também perceber o tempo, o espaço, a energia, o respeito pela pista. Sou fruto dessas horas invisíveis e dessa educação não-verbal da pista.
Costumas ser associado a um house muito físico e honesto. O que significa, para ti, tocar “house sem filtros”?
Tocar house sem filtros é poder tocar um tema porque ele faz sentido naquele momento e não porque é demasiado underground para uma festa de tarde ou demasiado “cheesy” para uma festa mais alternativa. Para mim, a música não tem de provar nada a ninguém. Tem de funcionar na pista, tem de mexer com as pessoas, tem de ter verdade. Nem sempre corre bem. E ainda bem. Porque são essas decisões às vezes arriscadas, às vezes fora do esperado, que mais distinguem o meu som. Prefiro assumir uma escolha genuína do que tocar seguro.
Hoje em dia sente-se cada vez mais a ideia de que um DJ tem de lançar música própria para se afirmar.
Até que ponto é importante ter produções originais? Ainda há espaço para o DJ enquanto puro selector?
Depende muito do objetivo de cada um. Para mim, são linguagens diferentes. Lançar música própria pode dar um impulso enorme e dá visibilidade, cria identidade autoral, faz com que outros artistas toquem o teu trabalho. Mas produzir deve nascer de uma necessidade de expressão artística, não de uma pressão de mercado ou de uma vontade de subir a escada mais depressa. Ainda acredito profundamente na figura do selector. O DJ que pesquisa, que escava, que constrói narrativa, que cria momentos irrepetíveis com música de outros. Essa arte continua a ser fundamental.
Ao longo do teu percurso tens passado por diferentes clubes e pistas. Que espaços mais te marcaram e que diferenças sentes entre clubes intimistas, grandes pistas ou eventos ao ar livre?
Por muito que goste de grandes pistas e de eventos ao ar livre, é nos clubes que me sinto mais confortável. Uma pista maior pede menos tempo de respiração, mais impacto imediato e menos margem para arriscar. Num clube intimista há mais espaço para construir, para deixar a música respirar, para contar uma história longa. Gosto de sets extensos, de cabines próximas da pista, de ambientes imersivos onde quase não existe separação entre quem toca e quem dança. Para mim, o clube é um espaço quase ritualista! fechado, escuro, concentrado e onde a energia circula de forma mais intensa.
2024 marcou a tua estreia no Lux-Frágil. Como foi esse momento e o que representa tocar num clube com tanta história?
O Lux sempre foi um grande objetivo para mim. Não só pelo clube que é, mas pelas memórias que carrega na minha vida. Lembro-me da primeira vez que o meu pai me levou lá durante a tarde, para estar com o Rui e conhecer o Manuel Reis. E lembro-me da primeira vez que pude entrar à noite, no aniversário de carreira do Rui. O Rui é, provavelmente, a maior influência naquilo que faço. Continuo a sentir-me o miúdo que estava no canto da cabine a observar tudo. Receber a chamada para tocar no Lux teve um peso emocional enorme.
Quando estás a preparar um set, o que guia mais as tuas decisões: a emoção do momento ou uma ideia prévia do caminho musical?
Claramente a emoção do momento. Claro que o DJ tem de fazer o trabalho de casa, conhecer bem a sua mala, preparar possibilidades. Mas ter uma ideia demasiado rígida antes de conhecer o contexto pode limitar tudo. A pista é um organismo vivo. Só quando sentes o espaço, e as pessoas é que sabes verdadeiramente para onde ir. O resto é intuição.
A pista de dança é central no teu discurso artístico. O que procuras sentir e provocar nas pessoas quando estás a tocar?
Passo tanto tempo na pista como na cabine. E acredito genuinamente que não há bons DJs que não dancem. A pista é uma abertura à loucura, ao que descobrimos quando nos perdemos. Quando toco, procuro devolver às pessoas aquilo que elas me deram enquanto estive a dançar.
A cena electrónica vive hoje entre a exposição digital e a experiência real do clube. Como vês esse equilíbrio?
Sempre me senti um pouco no meio. Não sou totalmente desligado das redes, mas também não me identifico com essa lógica de exposição constante. O que acontece online é muitas vezes muito diferente do que acontece num clube. O Instagram transformou muitos eventos em experiências rápidas, gigantes, quase sem identidade, e colocou o DJ num pedestal. Mas ao mesmo tempo, essa mesma plataforma colocou milhões de olhos na cultura eletrónica. E isso é uma oportunidade. Se uma pequena percentagem dessas pessoas ganhar curiosidade por viver a experiência real do clube então os clubes continuam vivos.
O desafio é não deixar que o digital substitua o real.
Olhando para o futuro, que tipo de movimento gostarias que o teu nome continuasse a gerar dentro e fora da pista?
Gostava que o meu nome continuasse a criar espaços de encontro. O Pôr do Som é muito reflexo disso, juntar diferentes gerações, diferentes formas de viver, pessoas que talvez nunca se cruzassem fora dali, mas que por algumas horas coexistem na pista. Se conseguir continuar a gerar comunidade, dentro e fora da cabine, então sinto que estou no caminho certo!






A UnderMag agradece a Miguel Nery pela disponibilidade, pela generosidade nas respostas e pelo tempo dedicado a esta conversa. Foi um privilégio conhecer melhor o percurso, as influências e a visão de um artista que continua a construir o seu caminho dentro da cultura electrónica com autenticidade e respeito pela pista de dança.
Entre memórias, referências e reflexões sobre o presente e o futuro da cena, esta conversa permitiu-nos mergulhar no universo de um DJ que vê a música não apenas como performance, mas como um verdadeiro espaço de encontro e partilha.
Desejamos a Miguel Nery os maiores sucessos para os próximos capítulos do seu percurso e esperamos voltar a acompanhar de perto os movimentos que continuará a gerar dentro e fora da pista.
